Estimado leitor, Carlos Fachada ama Maria e é por ela correspondido. Entretanto, o irmão de Carlos, José Fachada, também tem interesse por ela. Não por amá-la, mas sim por motivos menos nobres. Ajudado por Dona Benferina, uma ardilosa fofoqueira, e por Benjamim Mordessopra, um intrigueiro profissional, José Fachada não mede esforços para separar o futuro casal. E, para isso, trama as mais ardilosas mentiras e planta os mais terríveis boatos sobre qualquer um que tente atrapalhar seus planos.
Paralelo a isso, José Atiça, tio de Maria e seu guardião, vive com sua esposa, Rosália, uma crise no casamento. Ele, por ser uma pessoa muito honesta, não concorda com a boataria que andava solta na sociedade de seu tempo. Ela, uma ex-camponesa, que depois do casamento veio morar na cidade grande, mas não consegue esconder seu deslumbramento e cai nas tentações de uma vida fútil.
Este é, em linhas gerais, o enredo da peça A Escola do Escândalo, dirigida por Miguel Falabella, com Tonico Pereira, Maria Padilha, Bruno Garcia e Armando Babaioff nos papéis principais. Está em cartaz no teatro Raul Cortez, em São Paulo. No último fim de semana, estivemos com um grupo de alunos da 2ª série do Ensino Médio do Colégio Cenecista Dr. José Ferreira, assistindo ao espetáculo.
O texto é de Richard B. Sheridan, dramaturgo inglês que escreveu a peça no final do século XVIII. A sua intenção é clara: criticar uma sociedade fútil e hipócrita que se orientava menos por princípios éticos e morais e mais por interesses escusos e banais, não se importando em nada com os mecanismos usados para alcançar seus intentos.
Ao contrário, vangloriava-se na arte de ser desonesta, como deixa claro o personagem Benjamim Mordessopra, que mesmo depois de ter feito uma boa ação, pede para que as pessoas não comentem sobre ela, pois isso poderia prejudicar a sua reputação de mentiroso.
Sheridan, dessa maneira, mostra-nos com maestria como num ambiente em que os valores estão totalmente invertidos as pessoas se deixam levar por um mundo de aparências. O que vale não é o que se é de verdade, mas sim o que se aparenta ser. Em nome dessa vida de aparências, as pessoas traem, conspiram e mentem, na maior naturalidade, sem o menor resquício de crise de consciência.
Apesar de ter sido escrita há mais de duzentos e vinte anos, A Escola do Escândalo é de uma atualidade espantosa. Assim como os personagens de Sheridan destilam suas calúnias contra qualquer pessoa, o que ocorre em tempos atuais não é nada diferente. Se pensarmos nas mentiras e boatos que assolam os Facebooks, Twitters e mais um monte de outras redes de relacionamento, vemos que falar mal dos outros ainda é um esporte muito praticado.
O jornal Folha de São Paulo veiculava até pouco tempo um comercial no qual dois casais saíam do cinema e um deles conversava animadamente sobre o filme que acabara de assistir. O outro casal, por não ter mais informações sobre a película, explodia, deixando a cena. No final, a peça publicitária exibia seu slogan: conteúdo é tudo. A Escola do Escândalo nos adverte sobre isso: em nome de uma vida de aparências, estamos ficando sem conteúdo.
(*) Professor do Colégio Cenecista Dr. José Ferreira e da Facthus
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